sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

O silêncio da indústria jornalística brasileira


Entre as modernas teorias do jornalismo está a do Newsmaking, sistematizadas por pesquisadores respeitados como Mauro Wolf, Nelson Traquina e Jorge Pedro Sousa. Nos estudos do Newsmaking diz-se que a indústria jornalística segue os mesmos padrões de qualquer outra indústria. O jornal (ou qualquer outro veículo de comunicação) tem um horário para ficar pronto, qualquer atraso implica em diminuição da audiência e conseqüente diminuição das verbas publicitárias e do lucro. Por isso, para que não haja atrasos é preciso dar aos veículos de comunicação um ritmo industrial que implica não sõ em divisão de tarefas mas, principalmente, critérios objetivos para selecionar o que será notícia.
Em qualquer veículo, em todas as editorias, há uma enorme quantidade de assuntos que podem ser noticiados. O jornalista adota critérios que são chamados de valores-notícia. Quanto mais valores-notícia há no fato, maior a chance dele ganhar as manchetes da imprensa. Os pesquisadores Galtung e Ruge qualificaram alguns valores-notícia: freqüência, amplitude do evento, clareza, significância, consonância – facilidade para inserir o novo acontecimento numa idéia velha, inesperado, continuidade, composição – equilíbrio entre as editorias e assuntos, referência a nações de elite, personalização e negatividade.
Leia também: análise da cobertura da Veja pela Teoria do Jornalismo.
Nelson Traquina adiciona a esses, outros valores-notícia como o tempo: atualidade – uso de ganchos para falar sobre determinado acontecimento e efeméride – aniversários, datas comemorativas como o os cem anos do 14 Bis, os 5 anos do 11 de setembro, dia da criança, etc. Traquina também diz que em datas próximas a feriados, a escassez de notícias e a necessidade de equilíbrio entre as editorias permitem a publicação de pautas que, normalmente, não teriam espaço.
No caso da comemoração do massacre de Iquique, pela teoria do Newsmaking ele teria, numa primeira análise os seguintes valores-notícia:- efeméride: no dia 21 de dezembro completam 100 anos do fato. É uma data redonda, que a imprensa adora.- equilíbrio: na semana do Natal, as notícias ficam mais raras. Há férias no futebol, na política. Aumentam as chances das notícias que, normalmente, não seriam publicadas.É possível dizer, dependendo do pesquisador, que há significância (pelo número de mortos), proximidade (o Chile é vizinho do Brasil e o presidente Lula esteve no dia 17 de dezembro na região e os atos começaram no dia 15). No entanto, nada foi publicado pela grande imprensaNo dia 17, boa parte das notícias foram relacionadas ao acordo assinado em La Paz entre Lula, Michele Bachelet e Evo Morales para a criação do corredor interoceânico. A reportagem ganhou destaque pois houve cobertura da BBC. De 20 a 22 de dezembro, as notícias internacionais se concentraram no julgamento de Fujimori e as negociações entre as FARC e Hugo Chávez para a libertação de reféns colombianos.Essa análise levou em consideração, principalmente, as agências internacionais de notícias, principais fornecedores de material para indústria jornalística brasileira. A ausência de correspondentes no Chile já explica, em parte, o silêncio sobre o tema de Iquique. Evidente que as outras notícias sobre a América Latina têm valores-notícia fortes. Porém, o silêncio da grande imprensa guarda uma relação maior com outros fatores, como o histórico processo das elites latino-americanas de jogarem ao esquecimento os acontecimentos relacionados às lutas populares. Este raciocínio levou à pesquisa que resultou dissertação de mestrado "A Solidão da América Latina na Grande Imprensa Brasileira".
No percurso acadêmico que levou à redação da dissertação de mestrado defendida na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo no programa de Ciências da Comunicação, o ponto que mais provocou reflexão e debate foi a descoberta de que há dois tipos de construções históricas. Vencedores e vencidos, classes dominantes e subalternas constroem duas histórias. O massacre de Iquique - entre outros - é lembrado como um fato importante pelos movimentos sociais latino-americanos, enquanto que os livros da historiografia oficial preferem dar destaques aos ambientes palacianos, aos pactos de elite que dominaram a história do continente por mais de 500 anos.
Se a história opera duas construções diferentes, de acordo com os interesses das classes envolvidas, o jornalismo é o meio em que esta prática é ainda maior. A imprensa, por excelência, seleciona e exclui fatos no processo de transformação de acontecimentos em notícia. E este processo exclui a América Latina Popular. (NAZARETH, 1995).
A dissertação de mestrado pretendeu investigar quais fatores contribuem para formar o quadro de solidão da América Latina no jornalismo brasileiro. A hipótese levantada é que não se pode procurar a resposta em apenas um campo exclusivo de ação: a solidão da América Latina na mídia não é resultado apenas da lógica do Jornalismo. Para entender os fatores que levam uma região do globo – com toda sua história, sua cultura e toda a sorte de acontecimentos (como o massacre de Iquique) – desaparecerem de jornais, rádio, TVs e sites é preciso desvendar um cenário baseado em dois eixos de análise
No Eixo 1, batizado de ambiente sócio-histórico, estão os fatores ligados à História, à americanização, ao preconceito, à influência da ideologia capitalista e à cisão do continente em duas Américas Latinas excludentes: a América Latina popular e a América Latina oficial. No Eixo 2, dedicado ao jornalismo, estão os fatores que explicam o modo de produção jornalístico: a pauta consensual que faz circular as notícias dentro de um círculo restrito do que deve ser noticiado, as relações de trabalho nas redações, a formação intelectual dos jornalistas e o caráter capitalista da mídia que é um aparelho ideológico da América Latina oficial.
A leitura da dissertação (clique aqui para ver a versão em PDF, publicada na Biblioteca de Teses da USP) permite esclarecer melhor porque só a imprensa alternativa deu voz ao centenário do massacre de Iquique.

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